A COMPAIXÃO QUE CURA E ENVIA

Chamei-vos Amigos… porque tudo o que ouvi de Meu Pai vo-lo dei a conhecer” (III)

Leitura

Mas ele, querendo justificar a pergunta feita, disse a Jesus: «E quem é o meu próximo?» Tomando a palavra, Jesus respondeu:
«Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante.
Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: ‘Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.’ Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?»
Respondeu: «O que usou de misericórdia para com ele.» Jesus retorquiu: «Vai e faz tu também o mesmo.»
(Lc 10, 29-37)

Graça a pedir

Pedir a graça de dar de graça o que de graça recebi.

1º ponto – Teve compaixão e cuidou dele

Nesta parábola, Jesus faz-nos olhar para um homem que foi deixado meio morto, à beira do caminho, porque caiu nas mãos de salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram.

Passaram por ele tanto os profissionais de Deus como os das leis que ao vê-lo passam ao longe ou adiante. Não têm tempo para se deixar comover, vão ocupados com o que têm que fazer.

Jesus faz-nos também olhar, cuidadosamente, para outro homem que, não só passa, mas se chega ao pé dele e, vendo-o, enche-se de compaixão. A compaixão muda tudo. O homem aproxima-se, liga-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, coloca-o sobre a sua própria montada, leva-o para uma estalagem e cuida dele. Como se isto não bastasse, no dia seguinte, tira dois denários, dá-os ao estalajadeiro e diz-lhe: ‘Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.’ 

É impossível olhar para este quadro e não me ver a mim e o modo como Jesus me trata e o convite final é: “vai e faz o mesmo”.

2º ponto – Paula sente-se enviada a fazer o mesmo

Paula não fica ao longe a compadecer-se da situação das irmãs, põe-se a caminho e desafia os cocheiros. Uns têm medo, outros passam ao longe, não querem comprometer-se, mas um aceitou. Paula arrisca, com ele, aproximar-se da realidade. É ela que vai, é a vida entregue, é o coração que a move e mobiliza e, com a sua fé e confiança, arrasta outros. Foi isso que aconteceu ao enfrentar a torrente do Polcevera:

“Ao amanhecer, chegou a Génova a notícia da extraordinária inundação da torrente Polcevera. O coração maternal da nossa Madre Fundadora apertou-se-lhe ao pensar no perigo que corriam as suas Filhas. Queria ver com os próprios olhos, ajudá-las, se pudesse, ou pelo menos incutir-lhes coragem e morrer com elas, se preciso fosse. Nada pôde detê-la… Finalmente, um certo cocheiro de Rivarolo, que por acaso se encontrava em Génova, aceitou levar a nossa Madre Fundadora e a companheira. À medida que avançavam para a torrente Polcevera, o perigo aumentava: a região circundante parecia um mar, …o cocheiro insistia em voltar para trás, mas a nossa Fundadora, animando a companheira e cheia de fé, pedia-lhe que por amor de Deus continuasse, assegurando-lhe que Nossa Senhora os havia de salvar… encontraram-se em evidente perigo de serem arrastados pela corrente… A carruagem, finalmente, estava a salvo. Entretanto, as nossas Irmãs de Rivarolo tinham subido com as alunas para a pequena torre do Casino… De repente, vêem aproximar-se uma carruagem, e não há uma que não adivinhe quem vem ter com elas; e todas rejubilam de alegria, se bem que transidas de pânico. Descem precipitadamente ao encontro da querida Madre Frassinetti, que, atravessando com dificuldade a água que rodeava o Casino, se lança nos braços das suas Filhas. Toda a região está inundada!… pouco a pouco as águas desceram, e parece que não houve vítimas a lamentar. Quando a água deixou livre o caminho, a Madre Frassinetti mandou chamar o cocheiro que a tinha levado a Rivarolo e, agradecendo-lhe de todo o coração, ofereceu-lhe a maior recompensa que a sua pobreza lhe consentia” (Memórias p. 44 e 45).

3º ponto – A missão que me é confiada

O Samaritano chegou ao pé do homem que estava despojado, espancado, abandonado e meio morto, viu-o e teve compaixão dele.

Tomo consciência da compaixão de Jesus para comigo ao longo da minha vida: Ele liga-me todas as feridas para que encontre o sentido dos momentos sem-sentido da minha vida e envia-me a fazer aos outros o que Ele fez comigo.

Dou conta que eu sou essa pessoa que continuamente me sinto assaltada com tantas preocupações, me sinto espancada, alguém a quem a vida arranca as forças.

O que é que me faz sentir abandonado e meio morto? Jesus passa por mim, aproxima-se… falar-lhe desta experiência na minha vida. Deixar que Ele me cuide… sentir que Ele não me deixa entregue ao abandono. Depois de me sentir cuidado, ouço: “Agora vai e faz o mesmo”.

Paula recebeu o mandato: “vai e faz o mesmo”, a compaixão torna-a próxima, leva-a a arriscar confiando. A partir daqui, é-me pedido que seja compaixão para os outros como Jesus é para mim. Olho para o modo como Paula aprendeu com Jesus e confio-me ao Jesus de Paula. A experiência da pandemia veio revelar e/ou provocar situações de pessoas caídas, abandonadas, isoladas… na minha casa, nos lugares que eu frequento, na sociedade…

  • O que quer dizer para mim, hoje, “vai e faz tu o mesmo”?
  • Já me aconteceu “passar adiante”, com pressa, cheio de justificações?

Penso num gesto samaritano de compaixão para o meu dia-a-dia…

Terminamos este encontro com Maria, a Mulher do quotidiano, da compaixão… com um poema-oração de D. José Tolentino Mendonça:

(…) Aprendemos com Maria que o quotidiano é o lugar para acolher o anjo e as surpresas do anúncio de Deus.
Com Maria compreendemos que o quotidiano é o espaço da visitação, e que quando esta acontece o divino estremece em nós. 
Com Maria sentimos que as mil tarefas de um quotidiano exigente são mil oportunidades para dizer, diante do olhar de Deus, o nosso “sim”.
Com Maria experimentamos que o quotidiano nos permite não um alheamento, mas uma intimidade concreta e dia-a-dia renovada com Jesus.
Com Maria descobrimos o valor dos pequenos gestos, dos rituais repetidos, dos olhares que não se temem, do dom que é a presença sem mais.
Com Maria sabemos que um sorriso é uma história partilhada.
Com Maria damo-nos conta que o quotidiano é sim feito de migalhas, mas que misteriosamente elas contêm o infinito de Deus.

Bênção Final

Abençoe-nos o Pai com a Sua Omnipotência,
Abençoe-nos o Filho com a Sua Sabedoria,
Abençoe-nos o Espírito Santo com a Caridade. (Santa Paula Frassinetti)

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